Essa não é novidade, mas vale a pena divulgar: Filme de comédia dirigido por Raffaele Rossi em 1970 usou como locação o distrito de talhado, contando inclusive com a participação de moradores locais.
O roteiro conta a história de um rapaz inocente, trabalhador de uma olaria e admirador de música sertaneja romântica, o protagonista é perseguido pelos rapazes após despertar o interesse das garotas do povoado.
Segue texto do jornalista José Luis Rey, retirado do Jornal Bom Dia:
“Nem adianta procurar, o verbete aparece em pouquíssimos dicionários e compêndios sobre o cinema brasileiro. Mesmo assim, acabo topando, num cantinho da memória, com mais um caso de filme rodado em Rio Preto e, ao que parece, condenado ao cemitério das produções nunca ou muito pouco exibidas. Já acontecera antes com o abortado “A Hora dos Ruminantes”, do cineasta José de Anchieta, que chegou a rodar uma série de sequências e depois engavetou o projeto.
Quando chegou a Rio Preto, em 1978, disposto a colocar suas mãos de Midas no nicho dos filmes de temática sertaneja, o presidente do Grupo Paris Filmes, Alexandre Adamiu, parecia muito animado. A escolha do cenário, além – é claro – da óbvia identificação entre a cidade e o universo caipira, obedecia também a uma conveniente associação de negócios: a Paris Filmes havia se tornado, pouco tempo antes, a proprietária do prestigiado Cine Central e pretendia investir na região.
Na época, a participação da empresa em uma produção cinematográfica era meio caminho andado para o sucesso: como grande distribuidora e exibidora, a Paris tinha nas mãos a faca e o queijo para alavancar suas próprias produções. A ideia não poderia ser mais simples: filmar uma história baseada na música “João de Barro”, de Teddy Vieira e Muíbo Cury.
Adamiu convidou o diretor Rafaelle Rossi – autor de feitos como “A Gata Devassa” e “Roberta, a Gueixa do Sexo”. O elenco reunia belas mulheres, como as atrizes Renata Candu e Shirley Steck, que já haviam se despido em títulos como “Internato das Meninas Virgens” e “Uma Cama Para Sete Noivas”. O protagonista tinha que ser um cantor e, certamente por razões financeiras, a escolha recaiu sobre o obscuro Ivan Carlos, um jovem que tentava iniciar a carreira entoando canções sertanejas, que, então, começavam a se popularizar pelo país.
O filme foi rodado no povoado de Talhado e, entre alguns participantes locais, contou com uma “ponta” do radialista Olívio Campanha, o “Cuiabano”, que não fazia mais do que entrar no bar, dar um tapa no balcão e pedir uma cachaça. Na história, Ivan Carlos interpretava um rapaz ingênuo e humilde, operário de uma olaria, que gostava de cantar músicas românticas e por isso tornara-se muito popular entre as garotas do lugarejo e, ao mesmo tempo, odiado pelos demais rapazes.
Não é difícil imaginar o que seguia, até que o oleiro resolvesse expulsar de casa a amada que o enganava, fazendo exatamente o contrário do que o João de Barro fizera na música (“cego de dor, trancou a porta da morada / deixando lá a sua amada / presa pro resto da vida”).
Acho que o filme foi exibido alguns dias no Cine Central, mas jamais foi lançado em São Paulo e em outros lugares. A carreira do cantor parece ter tido idêntica efemeridade, embora Ivan Carlos tenha vivido minutos de celebridade, como no dia em que recebeu jornalistas para uma entrevista no apartamento onde estava hospedado, no elegante Augustus Hotel, no Centro. A certa altura, pediu para interromper a entrevista, discou um número no telefone e exultou:
–Manhê! Você não vai acreditar… Até a imprensa tá aqui me entrevistando!!!”
Raffaele Rossi (Arsiero, 1938 — Embu Guaçu, 2007) foi um cineasta e roteirista ítalo-brasileiro, tido como um dos grandes diretores do gênero pornochanchada.
Chegou ao Brasil em 1954. Sua ligação com o Cinema começou em 1963 com a venda de equipamentos. Depois de alguns curtas, e com certa vivência em outros filmes em que fez fotografia, edição e produção, por volta de 1971 aventurou-se na direção em O Homem Lobo, que escreveu e interpretou.
Embora o erotismo predomine em sua filmografia, arriscou-se por outros gêneros, como o horror.
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